A corrida é uma sucessão de saltos

Birmingham Indoor Grand Prix 2011 – Inglaterra

Conheça a história do corredor de rua que se tornou um dos melhores saltadores do Brasil

Iniciei no atletismo sem mesmo entender que estava fazendo, esse episódio ocorreu em 1998, alguns amigos da escola começaram a treinar corrida de rua inspirados num corredor local chamado Reginaldo “Ventania”, naquela época também era conhecido como “Miúdo”, uma figura emblemática na cidade que começou a vencer provas na região e competiu a São Silvestre e chegou a ir numa maratona em Nova Iorque com o apoio de empresários locais, sendo assim o primeiro atleta juquiaense  a competir internacionalmente. O Ventania realizava ações sociais na comunidade e naquele  ano organizou uma corrida de rua, eu jogava futebol, era goleiro e tinha talento para posição embora a altura não ajudasse, durante o treino um dos amigos que também corriam provas de rua me convidou para essa competição, eu resisti até ele me dar a importante informação de que teria um lanche gratuito no final, aquilo me convenceu rapidamente, era uma prova de 5 km para a minha faixa etária e me sentia capaz de cumprir o percurso, na hora da prova o “buraco foi mais embaixo”, tive muitas dificuldades para correr, tentei ir no ritmo dos meus amigos que já treinavam e não tive sucesso, fui diminuindo meu ritmo a ponto de caminhar em alguns momentos, mas terminei a prova! Afinal não poderia perder o lanche, para coroar minha participação ganhei uma medalha, a minha primeira no atletismo e voltei para a casa alimentado e com um objeto especial de recordação a qual exibo até hoje como sendo a minha primeira conquista no atletismo, que não significou um lugar no pódio mas representou a superação de um desafio.
Continuei jogando futebol e no final de 1999 a nossa cidade concluiu as obras de um centro esportivo denominado “Vila Olímpica Dondinho” em homenagem ao pai do Pelé, que era o equivalente a Ministro do Esporte no Brasil na época e nos presenteou com essas instalações esportivas compostas por um ginásio poliesportivo, uma quadra coberta, uma piscina semi olímpica, um campo de futebol e uma pista de atletismo, logo após a inauguração fomos todos treinar no local.
No ano 2000 durante meus treinos de futebol ficava observando o pessoal do atletismo treinando, orientados por um professor alto, negro, forte e com uma metodologia que me chamava atenção, eles brincavam o tempo todo no treino. Em 2001, realizávamos treinamento físico no campo, eu era o mais rápido entre todos os jogadores e isso chamou a atenção daquele professor de atletismo, no final do treino ele me chamou para conversar e me convidou para fazer um teste no atletismo, fui junto com um outro amigo do futebol e logo após o teste, o professor de atletismo, Julio César da Costa, conhecido como Julião, olhou nos meus olhos e disse com convicção que eu poderia ir muito longe se investisse no atletismo e contou quem ele era.
Julião é natural de Miracatu, cidade vizinha a minha, conheceu o atletismo na escola e teve uma trajetória vitoriosa no salto triplo, foi bicampeão sulamericano, viajou a vários países, fez faculdade e era um cara que saiu da mesma região, tinha todos os motivos do mundo para acreditar naquelas palavras e deu certo! Evolui muito e em pouco meses de treino era o segundo melhor saltador do Estado de São Paulo na minha idade em 2001, fui medalha de bronze num campeonato brasileiro no salto triplo em 2002 e comecei a despontar no salto em distância em 2003 quando cheguei no Projeto Futuro em São Paulo onde iniciaria uma jornada de treinamentos com os treinadores Nélio Moura e Tânia Moura, me consolidando como um atleta especialista no salto em distância, saltando acima dos 8 metros em mais de 20 competições durante minha carreira, fui a dois jogos panamericanos (Rio 2007 e Guadalajara 2011) e seis campeonatos mundiais, ainda sou o maior campeão do campeonato sulamericano com três títulos no salto em distância, detenho o recorde brasileiro da categoria sub 23 e saltei em quase 50 países, também tive a honra de fazer parte do Programa de Atleta de Alto Rendimento do Exército Brasileiro, onde fui 3º Sargento.


Posso dizer que o atletismo mudou o rumo da minha vida desde a primeira medalha naquela corrida de rua, que deu a sensação de que nada nessa vida é mais prazeroso do que superar suas próprias limitações, a importância que um treinador tem para a vida do atleta, a capacidade de estar na hora certa, dizer as palavras certas e lançar um jovem para o mundo, valorizando seu potencial e principalmente formando um cidadão com valores e princípios nobres do esporte.

Hoje sou pai de família, diretor executivo na maior federação de atletismo do país, tive a honra de ser secretário de esportes em Juquiá (cidade onde nasci no interior de São Paulo) e trabalhei na mesma vila olímpica que conheci o atletismo e com meu primeiro treinador que continuou firme por lá e ajudei outros jovens a acreditarem no esporte como ferramenta para fortalecer o protagonismo juvenil.Melhores marcas: 8 metros e 21 centímetros (sexta maior marca de todos os tempos no Brasil) – 8 metros e 32 centímetros (com  velocidade do vento acima do permitido) e 8 metros e 3 centímetros (indoor – pista coberta) segunda melhor marca da história do Brasil.

Rogério da Silva Bispo, 34 anos, bacharel em Relações Internacionais e tecnólogo em gestão pública. Atualmente é Vice presidente da Federação Paulista de Atletismo.

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Técnico fundador do Clube Corpore, em 1982, e do Pão de Açúcar Club, em 1992. Desde 2000 é comentarista e blogueiro.

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Wanderlei Oliveira

 

Iniciou no atletismo em 1965. Já percorreu o equivalente à três voltas ao redor do planeta Terra. Técnico fundador do Clube Corpore, em 1982, e do Pão de Açúcar Club, em 1992. Desde 2000 é comentarista e blogueiro.

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