Linha de chegada!

Cleber Isbin COMRADES MARATHON

Acompanhe o emocionante relato na íntegra do médico veterinário, Cleber Isbin, 35 anos, pós graduado em avicultura industrial, que trabalha 8 horas por dia na granja de seu pai em Jardinópolis, interior de São Paulo, ao completar a XXX Maratona Internacional de Porto Alegre, em 2013:

“Lembro-me como se fosse ontem da data de 8 de julho de 2008, após 10 anos de uso de drogas, decidi mudar o caminho da minha vida e tentar ficar apenas um dia sem usar drogas, a retirada da droga doeu muito, foram dias intermináveis de abstinência e a meta era sempre “ficar apenas um dia sem usar” e um dia de cada vez foi passando e levando a dor embora.

Dois meses depois, em setembro de 2008 experimentei um novo vicio em minha vida ao completar minha primeira prova de corrida (5km) na cidade de Ribeirão Preto (330km da capital) vizinha a cidade de Jardinópolis-SP onde moro.

Em março do ano seguinte corri outra prova de 5km e percebi que gostava muito de correr, porém não gostava de correr com a língua para fora e por pouco tempo, como as provas de 5km.

Foi então que ganhei uma revista e nela continha uma matéria sobre maratona, meus olhos brilhavam e minha mente já foi projetando correr uma maratona em comemoração à data de um ano limpo de abstinência total de todas as drogas incluindo o álcool.

O local da minha estréia na maratona já estava definido, seria no Rio de Janeiro em julho de 2009.

Fui fazer um check-up geral para saber se as drogas haviam causado algum efeito colateral que pudesse me impedir de correr os 42,195 km da maratona.

Graças a Deus os exames não acusaram nenhuma sequela que impedisse meu sonho, até entrar na sala do ortopedista que pediu para que eu ficasse em pé e juntasse minhas pernas uma na outra, ele pegou uma régua e disse a seguinte frase:

– Cleber você tem 10 cm de distância entre o joelho esquerdo e o direito (pernas de cowboy), isto impede que você possa praticar corrida de rua devido ao grande desgaste que você terá nas articulações que o levará há um quadro clinico de artrose dos joelhos, portanto procure outro esporte para praticar.

Fiquei frustrado e resolvi procurar outro médico, após explicar minha situação ele disse:

– Você é a prova viva de que tudo que eu aprendi na medicina sobre joelhos não se trata de uma verdade absoluta, você adaptou seu movimento de corrida as suas pernas tortas por isso não sente dores (sintoma clássico de artrose nos joelhos) está liberado para correr, se der algum problema volte a me procurar.

Retornei aos treinos para a maratona do Rio de Janeiro, após muitos treinos e uma disciplina espartana com a corrida, diferente de todas as outras áreas da minha vida, no qual eu nunca tive disciplina seguia em frente um dia de cada vez.

Após muitos treinos montados por mim, cheguei ao Rio de Janeiro para realizar meu grande e ambicioso sonho, porém um pico de ansiedade me fez acordar com crise de vômitos e diarréia, apenas alguns minutos da tão esperada prova, senti uma dor fortíssima de frustração, desilusão e impotência enorme, graças a Deus e minha esposa que me deu forças e apoio, eu consegui aceitar naquele dia as minhas limitações e não fui anestesiar aquele sentimento de dor com alguma droga (esta era a minha vontade naquele momento).

Reavaliei meus erros e recomecei a treinar para a maratona do Rio de Janeiro de 2010, desta vez orientado por um treinador.

Após correr, sentir câimbras, caminhar e correr eu cruzei a linha de chegada do meu grande sonho ao completar a maratona do Rio de Janeiro em 04 horas e 09 minutos, foi o sentimento mais profundo que já senti em toda a minha vida eu chorava e não entendia o que estava sentindo o filme da minha vida passava em várias cenas pela minha cabeça, todas as batalhas, tombos, sacrifícios, tudo havia valido a pena ter sido vivido daquela forma para sentir um êxtase daquele após a linha de chegada, um sentimento que droga nenhuma me proporcionou com tamanha intensidade e com o sabor da realidade, foi lindo saber que a vida compensava muito ser vivida daquela nova maneira.

Em Outubro de 2010, ou seja 3 meses após, lá estava eu em Buenos Aires para correr e concluir a minha segunda maratona com o tempo de 3h29min para a minha surpresa.

Em 2011 tive uma crise psicológica de overtrainning, não tinha mais prazer em correr tive que parar totalmente de correr durante 4 meses até conseguir voltar a sentir o prazer de correr.

Em maio de 2012 voltei a disputar uma maratona, foi a maratona de São Paulo, após quebrar e sofrer com câimbras posso dizer que aquela prova foi meu grande professor em maratonas, devido a quantidade de lições que retirei dela, entre tantas coisas que aprendi naquele dia a principal lição foi entender que a maratona merece todo o meu respeito.

Cinco meses após voltei a Buenos Aires para correr esta prova que muito me agrada em todos os sentidos que procuro em uma maratona, conclui em 3h02min aquele tempo era surreal em minha cabeça, demorou uns 15 dias para eu ficar convicto de que havia conseguido fazer aquele tempo que me credenciava para correr a maratona de Boston em 2014.

Após esta maratona comecei acreditar que seria possível fazer um sub-3 se continuasse com a mesma filosofia de manter o peso e a porcentagem de gordura baixos, meus amigos e familiares dizem que sou louco por me privar de tantas comidas deliciosas, mas faço isso em busca do prazer que encontro lá na linha de chegada de uma maratona, prazer este que não adianta eu tentar explicar, somente quem o saboreia poderá saber que gosto tem.

Após a São Silvestre de 2012 (em 1h01min) iniciei a preparação para a maratona de Porto Alegre 2013, foram 5 meses e 15 dias de treinamento, 1609km rodados, apenas 2 provas disputadas (meia maratona da CORPORE em 1h23min; e 10 km da volta USP Ribeirão em 39 minutos) o foco era o dia 16 de Junho de 2013.

Eu me sentia bem treinado, meu treinador Wanderlei Oliveira, havia encaixado uma ótima sequência de treinos no último mês de preparação, estava psicologicamente relaxado e o sonho de ser um sub-03 piscava de hora em hora na véspera da prova.

Sai controlando o ritmo e segurando com muita força mental a tentação de acelerar no primeiro trecho de 10 km da prova, estava me sentindo bem, leve, com muita facilidade no piso reto e plano e a temperatura baixa, mas o aprendizado da maratona de São Paulo sempre me vinha à cabeça “respeite a maratona, você vai acertar as contas com ela é a partir do km 32”.

A cada 10 km eu diminuía 5 segundos no pace (ritmo), passei a meia em 1h27min, estava bem, porém apreensivo aos sinais que meu corpo emitia durante a prova, após o km 30 meu ritmo ficou mais intenso 3min55seg e fui seguindo firme vendo alguns atletas andando, outros correndo torto como um zumbi e fui avançando e queimando minhas últimas reservas, então cruzei a linha de chegada com o split negativo projetado e resultado final de 2h50min41seg em 49° lugar entre aproximadamente 1300 concluintes, o sonho de ser um sub-03 estava concretizado no cenário da capital gaúcha, o esporte resgatou mais uma pessoa da morte, a vida foi celebrada na minha 5° maratona.”

 

Melhores resultados:

2h43m na Maratona de Buenos Aires em 2015

1h18m08s nos 21K ASICS Golden Four Porto Alegre 2014

3°lugar na Ultramaratona Trail de 55km em Petrópolis Rio de Janeiro 2015

3°lugar na Mizuno Uphill Marathon 2014

3° lugar Bahamas Marathon 2015

1° lugar Desafio Samurai 67km na Mizuno Uphill 2016

06h38m Comrades Marathon (up run) 2017

Atualmente, realiza trabalho voluntário contando a história de sua vida em escolas e ONGs com o tema da palestra:

“As consequências do uso de drogas na vida do Cleber Isbin e o esporte como ferramenta de recuperação e reinserção social”

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