Um ser humano iluminado

Cristina de Carvalho
Cristina de Carvalho

Era o ano de 1990, fui ao Paraná acompanhar a Liane Beretta (uma das principais triatletas nesse período), na famosa prova de triatlo de Caiobá que reunia os melhores atletas da modalidade. Um dia antes do evento, às 6 horas da manhã saí com a Liane para fazer uma corrida de soltura de 5 quilômetros pela praia. Na altura do terceiro quilômetro, ultrapassamos um grupo de jovens triatletas que conversavam e soltavam altas gargalhadas. Como não ia participar da prova, aumentei o ritmo e para minha surpresa uma delas me acompanhou, era a Cristina de Carvalho, que carinhosamente perguntou: “mestre, posso lhe acompanhar?”. Na época, ela tinha 20 anos. No dia seguinte, seu comportamento na prova: seriedade, concentração e garra me chamou atenção. Em especial na etapa de corrida onde ultrapassou vários homens ao final da prova. Fui lhe parabenizar no pódio pela prova e para minha surpresa, recebi um abraço e agradecimentos pelas palavras de incentivo no treino do dia anterior. Nascia aí uma admiração recíproca!

Transformação em maratonista

No início de 1996, ela me procurou dizendo que queria melhorar na corrida e seu sonho era correr uma maratona abaixo de 3 horas. Seu melhor resultado na distância era no Ironman de 3h35min, depois de nadar 3.800 metros e pedalar 180 quilômetros. Nos primeiros testes que realizamos na pista de atletismo do Estádio Ícaro de Castro Mello, no Ibirapuera, em São Paulo, percebi que em pouco tempo – seria possível atingir essa meta. A Cris era muito disciplinada, determinada, não perdia nenhum treino. E, o principal – nunca reclamava de nada!

Aos finais de semana, a levava para Campos do Jordão para os treinos em altitude e os treinos ao nível do mar no litoral norte de São Paulo. Ela sempre disposta às 6 horas da manhã. Em 1997, na preparação para a Maratona de Nova York, participou do Ironman de Porto Seguro, na Bahia e completou a maratona em 3h17, seu melhor resultado. Os últimos 10 quilômetros da prova, a pedido dela, corri para lhe dar uma força. Ao finalizar, estava radiante de felicidade. A pequena atleta, me abraçou, chorou e me levantou nos braços. Não sei de onde tirava forças!  Nesse ano, completava a Maratona de Nova York em 3 horas e 4 minutos.

O sonho do sub 3 horas na maratona

No ano seguinte, se dedicou mais as provas de 5 e 10 km para melhorar sua capacidade anaeróbia (ritmo e velocidade),  saiu de 42 minutos no início da temporada para 37 minutos nos 10 km em Brasília.  Na Meia Maratona do Rio de Janeiro, de 1998, seu objetivo era correr abaixo de 1h30. Sempre ao meu lado, momentos antes da prova, pegou em minha mão e fomos caminhando para nos posicionarmos no pelotão de elite. Mas, um fato inusitado aconteceu, o Rodolfo Eichler, diretor da prova, me chamou para conversar e acabei saindo ou pouco mais a frente. Aproveitei para tentar chegar na frente da Cris e assim foi até o quilometro 19, onde havia um retorno no Aterro do Flamengo, ela me viu  e ficou louca, gritou do outro lado: – vou te pegar. Como tinha um pouco de vantagem, acelerei o máximo que pude e mais uma vez, não sei de onde ela tirou forças,  me alcançou na linha de chegada e pulou nas minhas costas. Levei um susto!

Cruzei a linha de chegada na frente, mas ela inconformada – nunca aceitou isso. O tempo oficial dela foi de 1h27min56, melhor do que o meu de 1h28min01. Esse episódio foi motivo de muitas risadas e desafios! Logo a seguir, na Meia Maratona de Buenos Aires, na Argentina,  estabelecia seu melhor resultado de 1h22min11. No ano de 2000, em Nova York, nos Estados Unidos, conquistava seu sonho de 2 horas e 56 minutos, chegando entre as 20 melhores no geral. No ano seguinte, na Maratona de Paris, na França, melhoraria ainda mais para 2 horas e 52 minutos.

Ultramaratonista

Todos os esportes que praticou, sempre foi destaque, em especial nas provas de aventura de longa duração. Mas, mesmo assim, em 2012, após a Meia Maratona do Rio ela me manda uma mensagem: – fiz 1h27min20…até que engano bem, né? Assim era a Cris, sempre se desafiando. Outra ocasião, no final do ano passado, nos encontramos no Parque do Ibirapuera e me apresentou para um grupo do Núcleo Aventura que corria com ela e falou para os seus alunos: “este é meu mestre, somos atletas, ex-atletas NUNCA!

Guerreira

Ela sempre me tratou de uma forma carinhosa com muito respeito. Ela era uma verdadeira GUERREIRA, pela sua vontade de vencer, evoluir, ajudar as pessoas, incentivar, estimular cada atleta para que fizesse sempre o seu melhor e jamais se entregar.

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